9.8.09

Enchente

Essas águas que me formam

De onde elas vêm?

Em que maremoto extravagante desaguam?

Em que lago me largam despida?

Eu, tão íntima de meus líquidos, esqueço sempre de não pisar meu chão escorregadio.

Antiderrapante nenhum dá jeito na minha correnteza.

7.8.09

Limite

Além de mim não posso ser ninguém.

Trágico, não?

5.8.09

Agosto

Pra Fabi

Uma noite gelada em Botafogo e a gente pelas ruas desafiando o frio.
É assim mesmo que te vejo: com uma mochila de coragem a teus pés.
É só carregarmos juntas esse peso morno. Transformando o tédio em melodia.
Não quero fazer poesia pra você, não, que não sou capaz. Quero te dizer da vida e de tudo que vejo pra frente.

Quero as cervejas e aquelas horas do dia no sofá, maldizendo o mundo com tanto amor.
Quero desacreditar e lembrar. Quero cinema americano numa noite de domingo.
Quero te fotografar estirada numa grama verde, de biquíni amarelo.
Quero chocolate de aniversário e viagens pra fora, nossos planos. Quero pracinha e quero caos. Quero "John, I'm only dancing".

Não sei bem das respostas, sabe? Acho que elas não existem muito, são tipo fadas.
Prefiro ter essa idéia mistificada de que podemos ter a opção de saber.
Mas no fundo, você sabe, eu não acredito nisso.
Acho que coragem mesmo, pra valer, é olhar assim, no olho da vida, e responder: eu não sei.

Mas, em todo caso, sempre teremos essas noites geladas em Botafogo. E a gente pelas ruas desafiando o frio.

3.8.09

Manhã


Ela abriu os olhos devagar. O corpo doía, a cabeça pesava, o dia gritava.
Ainda tinha alguns minutos para se esticar e conseguir entender aquele acordar.
Ao seu lado o corpo dele dormia pesado, entregue. Era como se ela não estivesse ali e os sonhos o tivessem tomado por inteiro.
Ela olhava aquele corpo. Era estranho e íntimo. Suado e forte.
Até o olhar que ela lançava sobre ele era cuidadoso. Como se, olhando, ela fosse capaz de acordá-lo sem susto. Sem medo. Sem dor.
Colocou sua mão leve sobre suas costas largas. Ele dormia quente. Respirava pesado. Mas parecia sentir aquela mão pousada na curva da sua coluna. Uma mão só, que ficou ali, parada, durante muito tempo. Esperava por qualquer sinal de um abrir de olhos. Qualquer sinal de movimento. A mão parada não sentia nada além daquele sobe e desce de quem dorme profundamente. Ela sorria. Por quanto tempo esteve dormindo? Há quantos dias ele estava ali?
Uma luz pequena entrava pela janela. A mesma luz que, aos poucos, começou a pertubar aquele sono em forma de homem.
Ela conseguia perceber o despertar lento e doloroso daquele corpo cansado. Suas mãos agora passavam pelo seu cabelo, acariciavam aquele excesso de manhã que transbordava da cama.
Deitada ao seu lado ela podia ver os olhos se abrindo demoradamente. Uns olhos pretos que, ainda adormecidos, não estavam preparados para o dia. Uns olhos pretos que, ainda cansados, resistiam. Uns olhos pretos que, por mais que lutassem, acordavam.
Ele olhava para ela. Já não dormia mais e olhava para ela, que sorria ainda. Um sorriso largo, amanhecido.
Deitados na cama eles se olhavam como se nunca tivessem estado ali. Ela aproximou o seu corpo do dele, trazendo pra perto o cheiro da noite passada.
Agora ele também sorria, entendia, sabia. Era passada a hora do sono. Tinham que sair dali, retomar a vida que havia ficado trancada pra fora do quarto. Mas por qual caminho? Com que pernas?
Ela estava bem perto do seu rosto e brincava com a sua boca. Sua língua fazia movimentos de carinho, quase inofensivos. Beijava seu rosto, suas mãos. Sentia a vida ficando líquida no meio das pernas. Não controlava mais seus gestos ofegantes.
Ele continuava sorrindo. Já era evidente aquela vontade dos corpos, aquele amanhecer dos sentidos. Aquele instante parado no tempo, pedindo mais e mais e mais.
Os olhos já não tinham mais sono. Agora se olhavam firmes, eram precisos e delicados.
Se encostavam ainda mais, com medo de que qualquer espaço entre eles fosse demais. Colada nele, ela podia sentir os movimentos que denunciavam o desejo. Eram involuntários e faziam crescer não só o corpo, mas também a pressa.
E assim, nesse vai e vem de olhares, mãos e beijos, eles iam se perdendo naquela cama, dentro daquela manhã.
Ele sentia na ponta dos dedos a umidade do corpo dela, um convite. Ela tremia e segurava suas costas sem medo de puxá-lo pra dentro. Um gemido alto e eles já não estavam mais separados. Juntos, grudados, vencendo os primeiros raios de sol daquele dia que seria tão corrido.
Os olhos, vidrados uns nos outros, acompanhavam cada movimento latente, cada encaixe, cada ponto fraco, cada lugar escondido, cada descoberta. Eram dois na forma de um, amarrados por dentro. O corpo de um navegava dentro do corpo do outro. Fechavam os olhos e sentiam, cada vez mais, as respirações arfantes, os quase gritos que, presos, atiçavam o sim.
E ficaram muito tempo assim. O ritmo subindo e descendo pelos pés, pelas pernas, pelas barrigas, pelos ombros. Um ritmo que acelerava. Ele olhava pra ela. Ela olhava pra ele. Eles se tocavam, se beijavam. Ele conseguia ver o rosto dela se transformar. Com as mãos ao redor da sua cintura, ele puxava forte o corpo dela. Era como se quisesse ocupá-la inteira. Morar ali, naquele espaço quente e molhado. Ela sentia aquele olhar lascivo, aquele foco desconcertante. Ela gemia no ouvido dele, mordia, lambia. Como se dissesse que sim, que era assim, que não parasse. E ele não parava. E ela não parava. E não paravam os dois que, juntos, mergulhavam naquele sentir sem fim, onde nada mais existia, a não ser aquele grito que saía daquela cama e invadia aquela manhã.
Exaustos, eles ainda se olhavam. Não tinham mais pressa de escapar. Era tudo inteiro ali: e de mais ninguém.
Devagar, os ares ofegantes foram devolvendo o lugar dos sorrisos. Os olhares cúmplices se acariciavam de perto. O dia voltava a chamar pra fora.
E dentro do quarto aquele cheiro, aquela cor, aqueles olhos.
Dentro do quarto aquela fala engasgada quando não há o que dizer depois do corpo mostrar tudo.
Ela esticou a mão pra fora da cama, trazendo a calcinha que estava no chão desde a noite passada. Ele sorria. Quase pedindo que não, que a esquecesse jogada. Que continuassem. Mas calava. Sabia da vida e dos tempos gritantes. Sentou-se então na cama, deixando à mostra aquele pedaço das suas costas que ela adorava. Antes de se levantar ela apoiou levemente seus braços nos seus ombros. Se inclinou sobre ele, chegou perto da sua nuca e guardou aquele cheiro dentro da memória olfativa do dia.
Já podia ir embora. Pegou a tollha jogada no chão e planejou o banho e as roupas.
Antes de sair do quarto ainda olhou pra trás. Ele já de calça, mas ainda sem camisa. Os braços, nus, desenhados. As mãos percorriam os discos e escolhiam um.
Ela sorria. Já não temia o dia lá fora. Com os cabelos pretos um pouco embaraçados, ela abria a porta do quarto.
Eles sentiam a corrente de ar entrar. Deviam estar fechados ali há muito tempo, mas não tinham certeza.
Com a porta do quarto aberta, ela ainda voltou num rápido movimento e segurou seu rosto entre as mãos.
Foi um beijo longo e corajoso, que saía daquela cama, no meio daquela manhã, rasgando aquele dia.
E a música já tocava enquanto, por fim, ela abandonava aquele quarto: the sea was red and the sky was grey, wondered how tomorrow could ever follow today.

31.7.09

May day

Hoje acordei brincando de dezembro. Me cansei dos ônibus, da chuva, do frio.

Me senti sexy e poderosa do alto do meu mau-humor. Gritei com umas vinte e cinco pessoas diferentes. Uma delas não merecia. E gritei mais alto por isso.

Andei rápido, perdi a hora, esqueci quase uma vida em casa.

Me lembrei de tudo, apaguei metade. E tem sido assim nesse meio de ano tão covarde.

Meu período fértil, minhas roupas fora do armário, minhas fotografias sem photoshop, meus escritos em guardanapo, meu pai sem visita, minhas festas adiadas, minhas olheiras, meus sonhos interrompidos, minha tosse.

Tudo engasgado, engavetado, sujo, amassado.

Me cansei de ser essa que adia minha alegria.

Não sei como eu sobrevivo a mim.

30.7.09

Anfitriã

Esteve aqui, me leu por dentro, me invadiu as frases.
Não convidei, não chamei.
E agora já me sabe assim:
nua.
Logo eu, anfitriã de tantos vícios, dona de tantos cômodos públicos.
Ainda me surpreendo com uma visita para o chá.
Não te ofereço biscoitos, mas te mostro meu mundo em carne viva.
E, se gostar dele, volte sempre.

24.7.09

Sexta-feira

É como se hoje não bastasse em mim.

A quinta-feira me transborda.

E anoiteço sábado.

23.7.09

Quinta-feira

Hoje acordei com cinquenta e sete novos sorrisos.

E são todos seus.

14.7.09

Não se afobe, não, que nada é pra já.

Do alto do prédio eu te enxergo de costas.
Você é alto. Você sorri. Você sorri muito, muitas vezes. Como se o seu sorriso fosse sua forma de conversar com o mundo.
Você quase não fala, e quando fala o seu tom de voz é único. Quase uma cantiga, assim, no meu ouvido.
Seus movimentos são calmos. Seu corpo é preciso, desenhado. Ele tem a altura exata que me toma quando estou distraída.
E você me olha no olho. Num lugar que a gente não conhece, nem tem pressa de conhecer.
Eu fico te olhando de longe, do alto desse prédio que, hoje, me impede de chegar mais perto.
Eu observo seu caminhar, seu jeito de sentar, de olhar pra cima e pra baixo, como quem procura outro mundo. Observo seu ritmo calmo, contrário ao meu.
Te olho daqui enquanto meu corpo ferve nessa espera curiosa. Espera que eu escolhi a dedo e guardei no bolso.
Não sei quem você é. De onde vem. Eu não sei se você fala dormindo, se come carne, se gosta de vinho, se chora vendo filmes de amor, se quer filhos.
Estou do outro lado da vida que te conhece. E não quero mais que isso.
Te quero assim: logo antes de chegar. Quero sentir esse espaço que existe entre nós. Essa bolha com gosto de frio na barriga. Esse "eu" e "você", tão estranhos.
Quero sentir o instante logo antes da queda. Logo antes que eu me lance.
Logo antes que eu me jogue do alto desse prédio de onde te enxergo longe.
E aí vou. De cabeça, velocidade rápida, escuridão clara, coração na boca: eu, logo antes de ser sua.

18.6.09

Maré

Todos esses sais dos dias corridos. Essas juras, essas promessas que os minutos sacanas fazem dentro da gente. Esse jeito cego de arriscar tudo. De jogar tudo. De dormir no precipício.
O frio na barriga de olhar pra frente e ver a cortina do palco fechada. Mas ainda assim o desejo dos aplausos. E o pavor das vaias.
Essa vontade que não termina. E que não se sabe de que, de quem, de quando.
Essas manias que a vida tem de atar e desatar nós apertados quando o tempo engasga.
Esse truque mudo que a gente tem de não desistir nunca.
Se te parece pouco o que vês em volta, olha de novo.
De algum canto desse buraco escuro pula um rio, um mar. Alguma água que te leve dessa terra, nada mãe.
Confia no teu redor que, se não parece muito amigo, te engana pra te alcançar.
Confia nas marés, nas luas, nos sinais. Confia em tudo que não se sabe explicar.
Porque é daí que vem tudo que a gente inventa e costura com mãos de sonho.

18.12.08

profilaxia

será que hoje
você pode
me dar um abraço
bem apertado
e dizer assim no meu ouvido
"a vida é grande, vamos lá"
e me segurar forte, forte
com medo mesmo que eu saia
mas eu não saio
e você fica
e me diz coisas
e me convence
que isso tudo vale à pena
.

27.5.08

estômago

começa na ponta do pé. e fica lá um tempo, descansando da vida, dos medos.
paquerando os dedos e o peito do pé, essa coisa que planta a gente no mundo.
às vezes pega pelo cabelo também. e pelas pernas. muitas vezes pelas pernas.
mas não é nem na cintura e nem na nuca.
não é naquela curva do pescoço. não é nas costas. não é na boca.
é bem no meio da minha barriga que você mora.

1.4.08

primeiro ato

pra falar da alma queria ter dedos de mel.
queria a sutileza de uma pele clara, sem passado, sem calo.
queria ser sem partida nem chegada: eu, desenlaçada.
senhora de mim, pedaço de rua sem estrada.
pra falar da alma queria eu ser solilóquio, diálogo interrompido, monólogo das águas.
eu, que sou só gole.
antes assim: perpetuada.
minha mise-en-scene construída. cortina tombada.
pra falar da alma eu queria ter nas mãos o que deixei na casa antiga: meus anos, minha fé, eu mulher adormecida.
mas o que vejo é só isso: escombros, sangue e músculo.

17.10.07

naufrágio

- amanhã eu te ligo. tchau.

você fecha a porta e já não vê o rosto dela. você olha para a porta fechada por uns dez minutos, mais ou menos. você abre a porta. ela não está mais lá.
dentro de casa você anda em círculos. esbarra na bagunça vez por outra. são cadernos, caixas, papéis rasgados, cadeiras tombadas.
você caminha em direção ao banheiro branco. ele é frio e vazio. você liga a torneira e deixa a banheira encher até quase transbordar. mas você fecha e ela não transborda.
dentro da banheira a água está quente. o seu braço se estica e, na volta, traz com ele a lâmina, que não estava muito longe e não parece muito limpa. você olha para o retângulo prateado. procura o seu reflexo naquele pequeno espelho portátil. está embaçado.
você não está assustado. você está cansado. e com um pouco de frio conforme a água vai esfriando. você deixa que a lâmina crave sua pele desavisada que, de susto, sangra.
você sente dor. você quer ficar. mas ainda assim você morre.
nessa banheira vermelha de sonhos que te matam.


24.10.06

ainda que tarde

ainda era cedo quando levantei. olhei para aquelas nuvens no céu; pareciam ter um novo tom hoje. o branco, que sempre foi bem branco, hoje tinha uma ponta de cinza amarelado. e nas curvas de cima não pareciam mais com algodões. seria mais fácial compará-las com fumaça logo, já que a dimensão sólida havia se perdido.
fiquei muito tempo deixando os olhos se cansarem dos seus lentos movimentos.
quanto demoraria uma nuvem para atravessar meus pensamentos?
pra onde vai tudo isso?
essa possibilidade de chuva, essa tormenta, os furacões.
porque aqui eles nunca caem, já repararam?
decidi, então, investigar essa coisa do sumiço.
pra onde vão as nuvens, quando não chovem?

foi então que passou pela rua o caminhão de lixo. muito barulho, mas nem assim eram trovões.
os trovões estão lá, escondidos. em algum lugar perto de onde as nuvens tecem o céu.

quando eu crescer eu quero um vestido-nimbo.

13.9.06

nublada

tenho dentro de mim essas libélulas acessas.
hoje pela manhã cavei um buraco onde, outrora, havia escondido as minhas palavras.
elas não estavam mais lá.
libélulas, procurem!
onde está o meu poema? a minha sede? a minha úlcera?
na minha casa é assim: dentro das paredes mora um anjo que roubou meu coração.
e se essa rua fosse minha, eu já estava longe.
fico aqui por medo. medo de que minhas libélulas me abandonem.
mas tudo certo: fecho os olhos e vejo o mundo que me deixam ter.
gosto dos meus sussurros e da forma com que eles me tiram da cama.
tenho dentro de mim essas libélulas acessas.
e a minha vontade é de rasgar o estômago e ver que, junto ao sangue, as asas das libélulas ainda batem.

7.7.06

por mais que

eu sente aqui e te peça para adorar todos esses fatos que bem amarrados se transformam em minha vida por mais que eu queira isso e eu quero mais do que tudo nesse momento por mais que eu deseje que tudo isso mude e vire outra coisa no final por mais que eu esteja e não queira estar também e você sabe muito bem por quantas vezes nós podemos estar sem estar estando e eu queria hoje talvez falar de uma outra coisa que não me sai da garganta sabe? dessas coisas que por alguns minutos tiram a gente do ar e de brinde te dão um espetacular olhar estrangeiro sobre todas as coisas e todas essas coisas de alguma forma te atingem e fazem daquilo tudo uma coisa bem estranha.
por mais que você não note.

17.10.05

Pé de vento

Num pé, no outro.
Pulando? Talvez.
Mas até que não me espanta essa voluptuosidade das corridas cansadas e dos trocas.
Sim, trocas. Ou você acha que os passos vêm assim, impunimente?
Passos podem ser rápidos ou lentos. Mas, antes de tudo, são caminhadas.
Poderíamos dizer que caminhada é o coletivo de passo. Assim como passarada é o coletivo de pássaro.
E o coletivo de vida poderia ser troca.

E se não gostar não arranca a etiqueta.

8.8.05

Sobre a pressa.

Numa semana cabem sete dias.
Numa semana também cabem algumas horas. Mais de cem.
E os minutos, então... nem se fala.
Numa semana cabe todo esse raciocínio numérico que habita nossas mentes indóceis.
E cabe a possibilidade de contagem regressiva.
Alguns esperam o sol do dia que não é aproveitado dentro da sala do trabalho.
Outros contam os dias pra ver o pai que mora em outra casa. E que não mora na semana. Mas sim, fora dela.
Alguns ainda perdem a conta de quantas semanas já contaram esperando que a semana se passasse. E não passou.
E continuam a contar:
Numa semana cabe o tempo de um salário, um café, um revezamento de levar as crianças à escola.
Numa semana se gasta um quarto do tempo que se gasta pensando no mês.
Numa semana o tempo.
Numa semana passa.
Numa semana vai.
Em uma semana: cabe toda essa espera que não cabe dentro do corpo e a gente, por alguma razão, faz fugir rapidinho.
Antes que vire abóbora.