11.4.13

praga --- viena


os resquícios da neve no verde que ainda não floriu

minha primavera adiada, meu âmbar escondido

cadê a cor que eu deixei em você?
















perguntas que caminho nenhum traz

há que se inventar palavra nova pra dar conta desse trilho

só é quem não tem a estrada como par


13.3.13

inverno astral, tópicos de um março


aqui dentro venta tanto quanto ventaria se estivéssemos na sua varanda. a diferença é que lá sentaríamos com nossas caras prontas e ansiosas, esperando o tapa da brisa, que viria avisada, assim, como um hóspede.
aqui dentro não se espera outono nenhum. pescaria nenhuma tem lugar nesse mar morto, tão bem cultivado na minha memória.
anos novos se inauguram a cada angústia antiga. a vida é muito mais ontem do que amanhã. e fala de futuro quem não arde de saudade.
e há ainda os que digam que essas são palavras de morte. mal sabem que nada é mais vivo que meu inverno de véspera.

7.6.12

coleções



lavar os desejos com água de cheiro, vestir pra baile. costurar renda na lapela das vontades. se apegar, guardar, namorar. investigar os sonhos, saber de cor, lamber as crias. construir e desconstruir todos os dias as mesmas coisas, até que sejam outras a andar por perto. até que não sejam suas essas esquinas caseiras. amarrar no pé da cama as ideologias que te fazem ser metade. acordar e dormir encarando o susto de ser inteiro. 
pegar tudo que apraz, amarrar com laço de fita, enfeitar. proteger com plástico bolha sua pouca fé. guardar os gostos numa caixa com papel de seda. cuidar para que não se quebre cada estômago embrulhado.
até que dancem dentro de você as madrugadas. até que você chegue em casa enjoada do gosto do anis e tire os sapatos, ainda na porta. até que na cama você encoste, no travesseiro você encolha, nas fronhas você entorte. até que exausta, você não lembre mais de nada. e a dor do fim da festa te perfume a vida inteira.

27.12.11

chegada


'speak low when you speak love'

a ventania no portão de casa não chiava. as vírgulas, suspiros e sorrisos descansavam em volta. a primavera desesperada não poderia prever você.
a que sonhava, sonhava baixo, pra vida não acordar.
o sonho era curto, era susto. o sonho não previa você. no sonho não cabia você.
a que sonhava, sonhava pouco. doses eram costume.
os dias curtos tinham gosto de alerta, plaquinhas saborosas e desavisadas que brincavam na correria do destino.
a que sonhava esqueceu de acordar naquele dia. o que era curto virou imenso. o que era parede ganhou céu. muito sangue pra pouco corpo. muitas mãos pra pouca tarde.
agarrar com dedos o amor desperto. e aí sim: lá se vão os sonhos com os pés no chão.

todo dia.

1.9.11

hipótese

meus sonhos te olham dormir
os olhos navegam cada casa vazia
a minha, a sua
enquanto na rua
nossos pés dançam aquela valsa interrompida

18.5.11

correnteza


e lá se vai meu destino com sua fantasia de escafandro.

3.2.11

de repente

um beijo da rainha do mar,
um cheiro no pescoço do homem vento,
um sorriso rasgado numa esquina escura de copacabana,
os pés bem desgarrados da pouca fé,
a nuca pronta pra outro ano,
a carta escrita pra fora da manga,
o susto vomitado na rua.
e aí está: fevereiro rasgando em mim.

4.1.10

Namorada

Acordei cedo, pela manhã, como em toda boa segunda-feira.
Os olhos ainda grudados deixavam o sorriso vir, com jeito de quem topa o sono quando a idéia é acordar. E quando a noite passada ainda reina nos profundos do sonho.
Pelas ruas, o sol no rosto, aquele quente, de janeiro, que arde só de se saber. Que abafa o dia, acolhe a tarde e torce pela noite. Esquenta tudo. Os passos, o almoço, os medos, as sortes.
E a gente vai despertando pelo caminho, com esse calor que nos acomete nessas épocas de novo ano. Dentro e fora da gente. Um calor de começo, de planos. A ansiedade do novo "vir".
A barriga em festa pelas calçadas da crença. Os braços ansiosos, querendo tudo, podendo tudo, negando nada. Os pés infantis, trôpegos, estreiando suas novas estradas.

Essa tarde ninguém briga. Ninguém chora. Ninguém reclama da segunda-feira maldosa. Hoje ela é rainha, majestade de fino trato, digna do amor do mais reluzente dos sábados. Jogando a gente pra frente, pra dentro da semana. Ressaca nenhuma, que a gente quer mesmo esse tempo-agora. Com tudo que se tem direito, com essa cara a tapa safada que diz mesmo assim: vem, vem.

Essa tarde vesti minha saia mais bonita, minha blusa mais clara, meu rosto-novidade.
E fui pela rua, como quem não quer nada, namorando o ano novo.

23.12.09

Simples

Quando penso no seu nome me vem música.

E nada mais.

11.11.09

Peito


Sei que ele está ali. Sei do seu contorno e da sua vida.
Vejo sua forma no mundo, seu jeito de estar. Sua carne, seu músculo.
Sinto cada pedaço das suas vontades.
Tenho minha noção do seu espaço, de como ele se ajeita em mim.
Quero alimentar, construir, abrigar.
Quero essa casa aberta sempre. Com uma cortina fina e branca, pra essa luz cheia desse sol quente entrar na hora certa.
Cuido para que minha calma esteja perto dele.
Sei dele e ele sabe de mim.
Os que não sabem? Que não me venham.


29.10.09

Sim


Não tenho mais medo do vento.
Ele ontem me chamou e eu fui. Andei com ele por nossos países adormecidos.
Conversamos sobre névoas e cantos.
Ele me explicou que não é com sustos que se constrói uma casa. E me mostrou as vírgulas, tão precisas e delicadas.
O vento mudou meu parágrafo da história e agora escrevo com gosto de romance.

Não me interessa o número de páginas e personagens. Não me interessa que cochilem em algumas partes desinteressantes.
O que vai amarrar meu enredo é essa certeza de uma história vivida no músculo.
Não me interessam as críticas desse meu emaranhado de letras.
Meu livro de amor vai ter sempre gosto de sim.

E meu amigo vento me ajuda a voltar as páginas pra ler de novo e de novo. Como uma vontade de voltar ao mar num dia de praia, estirada ao sol.

17.9.09

Voltando ao ateliê, buscando a criatura.

Toda vez que me olho no espelho te vejo ali: em algum lugar que escapa de mim e, muito provavelmente, de ti também.
Te vejo nos meus olhos, na minha vontade de que existas.
Te invento, te persigo. E não vens. E não estás.
Não sei quem você é e ainda assim moras nos meus sonhos, nas minhas ânsias.
Queria ser livre como és a ponto de não existir. Livre, tão livre, que estás aqui, dentro de mim, e não te acho. Livre, tão livre, que és menino e menina. Forte e fraco. Jovem e antigo. Tortura e prazer.
És a exata quantidade de coisas que não sei ser. Cabes no teu tamanho, que transborda do meu. Cabes no mundo, apesar de mim, que não te sei. Cabes em mim, apesar do mundo, que não te acolhe.

Saio do espelho, deito, sonho. E você lá, em todas as paredes dessa casa pré-desabada que não me abriga em nada, só me desmonta. Essa casa que busquei pra te criar.

E que você toma de mim todos os dias.

8.9.09

Flor

Pétala por pétala meu coração se despedaça num sorriso com jeito de primavera adiantada.

25.8.09

Desassossegos serenos

Há muito tempo atrás elegi o "Livro do Desassossego", do Fernando Pessoa, o meu livro de cabeceira. É realmente um tanto desconcertante você elencar essa quantidade de sentimentos e vontades como preferidos. Precisei de muita coragem para ver o quanto me lambuzo no caos.
Mas, ao mesmo tempo, é bastante nobre e completamente compreensível que eu me identifique com as palavras do escritor português. Quem mais para falar da dor e do amor? Quem mais para dizer, em língua tão rica, o que nos atravessa? Quem mais para, no fim de uma frase, acordar qualquer estômago, qualquer gente?
Acontece que hoje me deparei com mais um desassossego. A mesma língua portuguesa, a mesma metrópole, o mesmo fado. Outra percepção, porém, do que seria nosso limite. Limite que se transforma em além. Pelo menos assim sinto. Mas sou suspeita. É como se minha inquietude fosse minha casa. E longe disso, em paz, não saberia caminhar.
Não sei se acaso ou destino. Mas penso que em português sabemos mais de nós. Essa saudade de ser que só nossa língua sabe dizer. Essa escrita que serve de varanda para nós mesmos. Como se nos avistássemos de fora. E compreendêssemos, sossegados, as borbulhas da alma.
E Saramago, assim, me fez carinho sem saber.
Deixo aqui minha descoberta do dia, de um livro de poemas do autor que, não coincidentemente, chama-se "Provavelmente Alegria":


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago

20.8.09

Rosas


"O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem."


Guimarães Rosa

16.8.09

Hai Kai


Poesia

Tudo que eu quis ser

E não fui

Um dia

11.8.09

Minha tarde com Leminski

se

nem

for

terra

se

trans

for

mar


Paulo Leminski

Bonança

Delícia aquele sol bem miúdo saindo por trás da nuvem

Depois que tudo era cheio cheio cheio

E vazou

10.8.09

Carta para um amigo desalmado

Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 2009.

Meu querido amigo,

Eu queria ter palavras doces pra te dar. Potes de carinho pra te despejar todas as vezes que te vejo.
Mas tenho raiva e sempre um gosto amargo que dura mais tempo do que gostaria quando te comportas assim.
Queria te alcançar e te contar histórias de como vamos ficar bem velhos, ouvindo aqueles shows de rock com nossos outros amigos velhos.
Mas hoje tenho aqui essa velha conta a acertar, essa velha mágoa pra deixar na mesa do bar.
Queria gargalhar até de manhã e te contar dos ofícios, das neuras, das coisas todas que quase sempre transbordam das nossas conversas.
Mas já disse: ando farta desse inábil companheiro que me deixa sempre na beira do rio, sem margem que dê pé.
Adoraria ser a amiga a te elogiar aos ventos. A te propagandear por aí, "esse é dos meus".
Mas insisto: hoje não. Hoje te quero quase morto, não fosse minha extrema habilidade para a covardia.

Espero que você saiba que essas palavras são só pra te perdoar. Que o que eu queria mesmo era festa e champagne.
Espero que você nem as leia. Que te passem, que te distraias e não venhas por aqui, nessas vizinhanças tão inóspitas.
Espero que nunca chegue até você essa minha incapacidade de te perceber. Essa minha incapacidade de te amar inteiro, porque não sei de ti. Te queria como vejo, como creio. E você é tão duro nessa qualidade de ser você. Te garantes tanto e nos perdemos.
Mas tenho fé que essas palavras não chegam a ti. Guardo-as aqui comigo, nessa casa que é minha e transparente.

Mas se vier, não se espante. Entre, sinta-se à vontade.
Ainda sou a mesma que te acolhe há tanto tempo.
Tire os sapatos, pise com cuidado nesse chão de palavrinhas indomadas.
Dê um sorriso, cuide de mim. Me deixe chorar, me faça rir.
Vá embora, mas, antes, fique um pouco.
Quem sabe assim a gente não apaga da minha carne esse talho com teu nome?

No mais, esqueça essa carta.
Que a gente só sofra o suficiente. Que a gente saiba curar esses anos de história mal contada.
E gargalhar no nosso final de livro tão bonito.

Eu te amo, viu?

Mas hoje não.

9.8.09

Enchente

Essas águas que me formam

De onde elas vêm?

Em que maremoto extravagante desaguam?

Em que lago me largam despida?

Eu, tão íntima de meus líquidos, esqueço sempre de não pisar meu chão escorregadio.

Antiderrapante nenhum dá jeito na minha correnteza.