4.1.10

Namorada

Acordei cedo, pela manhã, como em toda boa segunda-feira.
Os olhos ainda grudados deixavam o sorriso vir, com jeito de quem topa o sono quando a idéia é acordar. E quando a noite passada ainda reina nos profundos do sonho.
Pelas ruas, o sol no rosto, aquele quente, de janeiro, que arde só de se saber. Que abafa o dia, acolhe a tarde e torce pela noite. Esquenta tudo. Os passos, o almoço, os medos, as sortes.
E a gente vai despertando pelo caminho, com esse calor que nos acomete nessas épocas de novo ano. Dentro e fora da gente. Um calor de começo, de planos. A ansiedade do novo "vir".
A barriga em festa pelas calçadas da crença. Os braços ansiosos, querendo tudo, podendo tudo, negando nada. Os pés infantis, trôpegos, estreiando suas novas estradas.

Essa tarde ninguém briga. Ninguém chora. Ninguém reclama da segunda-feira maldosa. Hoje ela é rainha, majestade de fino trato, digna do amor do mais reluzente dos sábados. Jogando a gente pra frente, pra dentro da semana. Ressaca nenhuma, que a gente quer mesmo esse tempo-agora. Com tudo que se tem direito, com essa cara a tapa safada que diz mesmo assim: vem, vem.

Essa tarde vesti minha saia mais bonita, minha blusa mais clara, meu rosto-novidade.
E fui pela rua, como quem não quer nada, namorando o ano novo.

23.12.09

Simples

Quando penso no seu nome me vem música.

E nada mais.

11.11.09

Peito


Sei que ele está ali. Sei do seu contorno e da sua vida.
Vejo sua forma no mundo, seu jeito de estar. Sua carne, seu músculo.
Sinto cada pedaço das suas vontades.
Tenho minha noção do seu espaço, de como ele se ajeita em mim.
Quero alimentar, construir, abrigar.
Quero essa casa aberta sempre. Com uma cortina fina e branca, pra essa luz cheia desse sol quente entrar na hora certa.
Cuido para que minha calma esteja perto dele.
Sei dele e ele sabe de mim.
Os que não sabem? Que não me venham.


29.10.09

Sim

Pra Bruna

Não tenho mais medo do vento.
Ele ontem me chamou e eu fui. Andei com ele por nossos países adormecidos.
Conversamos sobre névoas e cantos.
Ele me explicou que não é com sustos que se constrói uma casa. E me mostrou as vírgulas, tão precisas e delicadas.
O vento mudou meu parágrafo da história e agora escrevo com gosto de romance.

Não me interessa o número de páginas e personagens. Não me interessa que cochilem em algumas partes desinteressantes.
O que vai amarrar meu enredo é essa certeza de uma história vivida no músculo.
Não me interessam as críticas desse meu emaranhado de letras.
Meu livro de amor vai ter sempre gosto de sim.

E meu amigo vento me ajuda a voltar as páginas pra ler de novo e de novo. Como uma vontade de voltar ao mar num dia de praia, estirada ao sol.

17.9.09

Voltando ao ateliê, buscando a criatura.

Toda vez que me olho no espelho te vejo ali: em algum lugar que escapa de mim e, muito provavelmente, de ti também.
Te vejo nos meus olhos, na minha vontade de que existas.
Te invento, te persigo. E não vens. E não estás.
Não sei quem você é e ainda assim moras nos meus sonhos, nas minhas ânsias.
Queria ser livre como és a ponto de não existir. Livre, tão livre, que estás aqui, dentro de mim, e não te acho. Livre, tão livre, que és menino e menina. Forte e fraco. Jovem e antigo. Tortura e prazer.
És a exata quantidade de coisas que não sei ser. Cabes no teu tamanho, que transborda do meu. Cabes no mundo, apesar de mim, que não te sei. Cabes em mim, apesar do mundo, que não te acolhe.

Saio do espelho, deito, sonho. E você lá, em todas as paredes dessa casa pré-desabada que não me abriga em nada, só me desmonta. Essa casa que busquei pra te criar.

E que você toma de mim todos os dias.

8.9.09

Flor

Pétala por pétala meu coração se despedaça num sorriso com jeito de primavera adiantada.

25.8.09

Desassossegos serenos

Há muito tempo atrás elegi o "Livro do Desassossego", do Fernando Pessoa, o meu livro de cabeceira. É realmente um tanto desconcertante você elencar essa quantidade de sentimentos e vontades como preferidos. Precisei de muita coragem para ver o quanto me lambuzo no caos.
Mas, ao mesmo tempo, é bastante nobre e completamente compreensível que eu me identifique com as palavras do escritor português. Quem mais para falar da dor e do amor? Quem mais para dizer, em língua tão rica, o que nos atravessa? Quem mais para, no fim de uma frase, acordar qualquer estômago, qualquer gente?
Acontece que hoje me deparei com mais um desassossego. A mesma língua portuguesa, a mesma metrópole, o mesmo fado. Outra percepção, porém, do que seria nosso limite. Limite que se transforma em além. Pelo menos assim sinto. Mas sou suspeita. É como se minha inquietude fosse minha casa. E longe disso, em paz, não saberia caminhar.
Não sei se acaso ou destino. Mas penso que em português sabemos mais de nós. Essa saudade de ser que só nossa língua sabe dizer. Essa escrita que serve de varanda para nós mesmos. Como se nos avistássemos de fora. E compreendêssemos, sossegados, as borbulhas da alma.
E Saramago, assim, me fez carinho sem saber.
Deixo aqui minha descoberta do dia, de um livro de poemas do autor que, não coincidentemente, chama-se "Provavelmente Alegria":


Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago